Quinta-feira,
06 de janeiro de 2004
Ano 1 - edição 184

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Coluna atualizada às terças

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A maldição da vuvuzela

Quando milhares de guerreiros astecas, um dos impérios mais antigos das Américas, que habitaram o território que hoje é o México, enfrentaram, no início do século XVI, os pouco mais de quinhentos soldados espanhóis de Hernan Cortez, parecia uma guerra fácil de ganhar. Afinal, os melhores jovens astecas eram escolhidos para uma preparação especial, em escolas militares, onde aprimoravam as técnicas de combate. Guerreiros temidos em toda a região lutavam para impor-se sobre as tribos vizinhas e cobrar tributos, ou ainda para ter prisioneiros destinados aos sacrifícios aos deuses.

Porém, a tecnologia europeia fez a sua primeira (e aterrorizante, aos olhos dos nativos) aparição: os elmos, armaduras, arcabuzes e canhões dos espanhóis criaram uma vantagem psicológica imbatível. Além disso, a conjunção homem/cavalo, animal até então desconhecido, colocou os soldados de Cortez em um nível superior, quase semideuses, e para uma cultura que adorava centenas de deuses era quase impossível derrotá-los.

Para piorar a situação dos astecas, as doenças trazidas do Velho Continente, como a varíola, dizimaram milhares de habitantes e baixaram o moral dos combatentes, pavimentando a vitória dos espanhóis. Montezuma, o último imperador asteca a tentar resistir, depois de render-se foi assassinado pelos espanhóis. Porém, antes de morrer, lançou uma maldição contra a civilização branca, profetizando que ela seria destruída por dois produtos desconhecidos na Europa: o tabaco e a cocaína.

Claro que alguns gaiatos criaram uma versão moderna da maldição, direcionada para as consequências que a comida mexicana traz para quem chega ao país. Com muitos pratos que têm como ingrediente básico a pimenta, quase que invariavelmente o resultado é uma corrida desenfreada ao banheiro, às vezes até com complicações graves.

Enfim, maldições existem aos montes, em todo o mundo. E acho que estamos vendo, nessa Copa do Mundo, o surgimento de mais uma: a das vuvuzelas. A invenção do africano Saddam (mais um) Maake, que afirma ter criado o instrumento em 1992, e que atinge a inacreditável marca de 140 decibéis, o som de um jato comercial, está infernizando ouvidos na África do Sul e transmissões de rádio e TV em âmbito planetário. Não acredito que alguém ache interessante assistir a um jogo ao lado de um sujeito soprando uma malfadada corneta, que emite um único, monocórdio e monótono som o tempo todo.

Faz muito tempo que não vou a um estádio, não só por falta de vontade, mas também pelas circunstâncias que hoje cercam uma partida, como segurança, cambistas, flanelinhas etc. Porém, quando ia regularmente aos jogos, uma das coisas que me atraíam era a convivência com gente desconhecida, a irmandade gerada espontaneamente pelo objetivo comum, as observações sobre o jogo, a discussão acalorada mas amistosa sobre jogadores, tática, técnico. Como fazer isso com milhares de vuvuzelas zumbindo ferozmente como um enxame de abelhas africanas?

O pior de tudo é pensar, observando o que acontece na África, que a moda vai pegar e que teremos, infelizmente, uma invasão das cornetas nos campos de futebol. Para quem gosta do esporte não só pelo jogo, mas pelo relacionamento humano que o cerca, onde o diálogo é fundamental, é ou não é uma maldição?


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