Quando milhares de guerreiros astecas, um
dos impérios mais antigos das Américas, que habitaram o
território que hoje é o México, enfrentaram, no início do
século XVI, os pouco mais de quinhentos soldados espanhóis
de Hernan Cortez, parecia uma guerra fácil de ganhar.
Afinal, os melhores jovens astecas eram escolhidos para uma
preparação especial, em escolas militares, onde aprimoravam
as técnicas de combate. Guerreiros temidos em toda a região
lutavam para impor-se sobre as tribos vizinhas e cobrar
tributos, ou ainda para ter prisioneiros destinados aos
sacrifícios aos deuses.
Porém, a tecnologia europeia fez a sua
primeira (e aterrorizante, aos olhos dos nativos) aparição:
os elmos, armaduras, arcabuzes e canhões dos espanhóis
criaram uma vantagem psicológica imbatível. Além disso, a
conjunção homem/cavalo, animal até então desconhecido,
colocou os soldados de Cortez em um nível superior, quase
semideuses, e para uma cultura que adorava centenas de
deuses era quase impossível derrotá-los.
Para piorar a situação dos astecas, as
doenças trazidas do Velho Continente, como a varíola,
dizimaram milhares de habitantes e baixaram o moral dos
combatentes, pavimentando a vitória dos espanhóis. Montezuma,
o último imperador asteca a tentar resistir, depois de
render-se foi assassinado pelos espanhóis. Porém, antes de
morrer, lançou uma maldição contra a civilização branca,
profetizando que ela seria destruída por dois produtos
desconhecidos na Europa: o tabaco e a cocaína.
Claro que alguns gaiatos criaram uma versão
moderna da maldição, direcionada para as consequências que a
comida mexicana traz para quem chega ao país. Com muitos
pratos que têm como ingrediente básico a pimenta, quase que
invariavelmente o resultado é uma corrida desenfreada ao
banheiro, às vezes até com complicações graves.
Enfim, maldições existem aos montes, em todo
o mundo. E acho que estamos vendo, nessa Copa do Mundo, o
surgimento de mais uma: a das vuvuzelas. A invenção do
africano Saddam (mais um) Maake, que afirma ter criado o
instrumento em 1992, e que atinge a inacreditável marca de
140 decibéis, o som de um jato comercial, está infernizando
ouvidos na África do Sul e transmissões de rádio e TV em
âmbito planetário. Não acredito que alguém ache interessante
assistir a um jogo ao lado de um sujeito soprando uma
malfadada corneta, que emite um único, monocórdio e monótono
som o tempo todo.
Faz muito tempo que não vou a um estádio,
não só por falta de vontade, mas também pelas circunstâncias
que hoje cercam uma partida, como segurança, cambistas,
flanelinhas etc. Porém, quando ia regularmente aos jogos,
uma das coisas que me atraíam era a convivência com gente
desconhecida, a irmandade gerada espontaneamente pelo
objetivo comum, as observações sobre o jogo, a discussão
acalorada mas amistosa sobre jogadores, tática, técnico.
Como fazer isso com milhares de vuvuzelas zumbindo
ferozmente como um enxame de abelhas africanas?
O pior de tudo é pensar, observando o que
acontece na África, que a moda vai pegar e que teremos,
infelizmente, uma invasão das cornetas nos campos de
futebol. Para quem gosta do esporte não só pelo jogo, mas
pelo relacionamento humano que o cerca, onde o diálogo é
fundamental, é ou não é uma maldição?