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A quarta irmã
Queria saber por onde ela anda. Desde sempre busquei
informações sobre seu paradeiro, mas parece que ninguém sabe
e quem sabe se recusa a dizer – sei lá por quê. Lamento e
irei lamentar até o último dia, se não nos encontrarmos
mais. O fato é que ela faz parte da minha vida e, mesmo que
ela ache que não, ainda é uma de nós.
Ana chegou em nossa casa antes de
mim. Para ser mais precisa, quando eu estava pedindo para
nascer. Barriga de sete meses, mais três filhos para dar
conta, minha mãe não se intimidou e pegou mais uma. Antes,
cuidou da mãe da menina, desde criança. Os anos foram
passando e Gina foi ficando ali, se aninhando. Era "da
casa". Seus namoros nunca chegaram a incomodar meus pais,
apesar de todas as recomendações. Tudo parecia ir bem, até
que ela apareceu grávida. E já havia estado antes, três
vezes. Três abortos secretos. Na quarta, o descuido foi
descoberto, antes que ela tirasse mais um filho. Deu-se o
drama. "Esse você não tira", decidiu minha mãe, ameaçando
entregar o caso à polícia.
Assim, Ana nasceu e passou a ser
parte de nós. Antes que a mãe lhe entregasse à adoção, meus
pais foram mais rápidos e a levaram para nossa casa.
Crescemos juntos. Como irmãos, nós cinco. Até que, num dia
desses que a gente prefere esquecer na vida, Gina resolveu
que era hora de voar longe do ninho, levando a criança.
Jamais vou esquecer o choro de
minha mãe, ao ver a menina indo embora. Em sua integridade,
não quis roubar o direito que a mãe biológica tinha ao
arrependimento. Por isso, deixou que ela registrasse a
filha. Nenhum direito, disseram os advogados. Lembro de não
querer ir à escola por dias e dias. Não entendia nada, nem
fazia idéia do tamanho do problema que aquela partida havia
provocado. Eu só sentia saudade. E confidenciava às bonecas
a minha dorzinha no peito.
Após longo silêncio, um dia alguém
nos levou notícias. Entre bilhetes e telefonemas, o encontro
foi acertado. Roupas de domingo, presentes, bolos, doces,
fomos até elas. Anos de espera, até que ao longe vimos a
espiguinha de milho no portão. Lindo par de olhos azuis.
Sorriso aberto. "Mainha!", gritou ao ver o carro dobrar a
esquina.
Meu peito veio à boca. Eu não
lembrava mais como era seu rosto, sua voz. Aquela que havia
dividido o berço, o colo, o amor dos pais, as atenções, a
mesa comigo. Pela recepção vimos: ela não esqueceu. Quando
saiu de casa, aos sete anos, seu amor estava solidificado,
enraizado. Criança sabe das coisas. E como sabe. Conversamos
animadamente por uma tarde inteira. Os adultos ficavam
sérios, sorriam, ficavam sérios novamente. Tentaram férias,
fins de semana. Nada feito. Sem apego ou cobranças.
Depois daquele dia, nunca mais. Em
uma conversa de comadres, certa vez, surgiu o boato de que a
mãe havia morrido. Mas nada da menina. Durante todos esses
anos eu busco um sinal, qualquer pista que me leve a ela.
Quero saber como é seu rosto, ouvir sua voz, ver aquele
sorriso, saber se tem filhos, se é feliz. E, além disso,
tenho imenso desejo de um abraço, depois de perguntar se ela
também não nos esqueceu. |