Quinta-feira,
06 de janeiro de 2004
Ano 1 - edição 184

Página principal Sobre o DS Redação Assine agora Para anunciar









  Política

  Álvaro Lopes

  Cláudio Humberto

  DS Política

  DS Entrevista

  Esporte

  Matheus Madeira

  Reginaldo Leme

  Geral

  Leticia Penter Niehues

  Ronaldo Coutinho

  Lazer

  Berto Koch

  Cícero Augusto

  Deka May

  Nelson Rubens

  Paulo Coelho

  Pe. Marcelo Rossi

  Dmais

  Festas

Germana Telles
Coluna atualizada aos sábados

Dê sua opinião


A caixinha de fósforos

A caixinha de fósforos era muito esperada. O ano inteiro nós sonhávamos com ela, que trazia o presente diferente. Ele sabia como agradar as crianças, tinha o dom de tornar tudo encantado, diferente. Unia o polegar e o indicador e transformava uma sombra na parede em um pássaro, mudava os movimentos e nos dava o animal que quiséssemos.

Nos ensinou a construir mini-represas no quintal da casa de minha avó, contava histórias de dar medo, mas que nós gostávamos mesmo assim.

Passaram por nossos olhos a "Perna Cabeluda", a "Menina Sem Nome", o "Boi Tatá", a "Mula-sem-cabeça", a "Cabra Alada" e muitos outros personagens que ele buscava nas lendas de sua infância, revestia com mais fantasia e nos entregava, nas noites mornas em que toda a família se reunia para festejar as férias.

Mas eu falava da caixinha de fósforos, que não tinha nenhum palito dentro e, sim, dinheiro para que pudéssemos aproveitar o parquinho, com seus brinquedos enferrujados, rangendo a noite inteira, abafados pela música estridente que chegava a doer nos ouvidos, mas que nos levava quase ao êxtase.

Soltos, em meio à multidão que se espremia, queríamos gastar tudo na roda gigante e na pescaria, sonhando que poderíamos levar aquele urso enorme para casa como recompensa.

Era a "Festa do Bolinha", regida pela música noite a dentro: "Eu ontem fui à festa na casa do Bolinha, confesso não gostei dos modos da Glorinha...", contando peripécias da turma da Luluzinha em versos ingênuos.

Eram esses os heróis da nossa infância e era essa a nossa melhor festa. Meu tio ensinou, através de gestos simples, como se pode encher alguém de amor com tão pouco. Ensinou também a buscar sonhos, a construir histórias e a aquecer os corações com palavras. Sempre quis ter aquele charme todo com as minhas sobrinhas. Queria saber contar histórias com todo aquele fascínio, inventar presentes diferentes _ que nenhuma loja poderia vender _ para que os dias das minhas pequenas fossem tão felizes quanto aqueles meus dias.

Por algum tempo pensei que não adiantaria: seria uma tia que mora muito longe, que chega nos Natais e vai embora quando o verão está começando. Estaria bem longe do planejado... Até que ganhei mais um presente, bem daqueles diferentes mesmo e que me fez acreditar que eu consegui. No caderninho de escola, mandado pela irmã de longe, a tarefa do dia era desenhar o que a pequena aprendiz sonhava. E lá estava: a tia que mora distante (com fartos cachos descendo sobre os ombros, mãos dadas com o ser minúsculo) e a frase sob os pés das criaturas no papel: "Quero ser como a minha tia".

Ganhei o dia, a noite e todo o resto da minha vida naquele caderno, naquelas palavras, escritas com letrinhas mal traçadas. Nada pode me dar maior prova de que, apesar de tantos defeitos acumulados ao longo dos anos, dei certo nessa vida, sim. Nenhuma palavra feia pode apagar esse amor que nos une, vence estradas e me faz mais forte, aqui, bem dentro de mim.


© 2007 Jornal Diário do Sul. Todos os direitos reservados. 
Desenvolvimento: Adriano Fernandes da Silva / André Henrique