Quinta-feira,
06 de janeiro de 2004
Ano 1 - edição 184

Página principal Sobre o DS Redação Assine agora Para anunciar









  Política

  Álvaro Lopes

  Cláudio Humberto

  Cristovam Buarque

  DS Entrevista

  Esporte

  Matheus Madeira

  Reginaldo Leme

  Geral

  Rafael Menegaz

  Lédio Rosa

  Ronaldo Coutinho

  Lazer

  Cícero Augusto

  Germana Telles

  Micheline Zim

  Nelson Rubens

  Paulo Coelho

  Pe. Marcelo Rossi

  Dmais

  Festas

Germana Telles
Coluna atualizada aos sábados

Dê sua opinião


A quarta irmã

Queria saber por onde ela anda. Desde sempre busquei informações sobre seu paradeiro, mas parece que ninguém sabe e quem sabe se recusa a dizer – sei lá por quê. Lamento e irei lamentar até o último dia, se não nos encontrarmos mais. O fato é que ela faz parte da minha vida e, mesmo que ela ache que não, ainda é uma de nós.

Ana chegou em nossa casa antes de mim. Para ser mais precisa, quando eu estava pedindo para nascer. Barriga de sete meses, mais três filhos para dar conta, minha mãe não se intimidou e pegou mais uma. Antes, cuidou da mãe da menina, desde criança. Os anos foram passando e Gina foi ficando ali, se aninhando. Era "da casa". Seus namoros nunca chegaram a incomodar meus pais, apesar de todas as recomendações. Tudo parecia ir bem, até que ela apareceu grávida. E já havia estado antes, três vezes. Três abortos secretos. Na quarta, o descuido foi descoberto, antes que ela tirasse mais um filho. Deu-se o drama. "Esse você não tira", decidiu minha mãe, ameaçando entregar o caso à polícia.

Assim, Ana nasceu e passou a ser parte de nós. Antes que a mãe lhe entregasse à adoção, meus pais foram mais rápidos e a levaram para nossa casa. Crescemos juntos. Como irmãos, nós cinco. Até que, num dia desses que a gente prefere esquecer na vida, Gina resolveu que era hora de voar longe do ninho, levando a criança.

Jamais vou esquecer o choro de minha mãe, ao ver a menina indo embora. Em sua integridade, não quis roubar o direito que a mãe biológica tinha ao arrependimento. Por isso, deixou que ela registrasse a filha. Nenhum direito, disseram os advogados. Lembro de não querer ir à escola por dias e dias. Não entendia nada, nem fazia idéia do tamanho do problema que aquela partida havia provocado. Eu só sentia saudade. E confidenciava às bonecas a minha dorzinha no peito.

Após longo silêncio, um dia alguém nos levou notícias. Entre bilhetes e telefonemas, o encontro foi acertado. Roupas de domingo, presentes, bolos, doces, fomos até elas. Anos de espera, até que ao longe vimos a espiguinha de milho no portão. Lindo par de olhos azuis. Sorriso aberto. "Mainha!", gritou ao ver o carro dobrar a esquina.

Meu peito veio à boca. Eu não lembrava mais como era seu rosto, sua voz. Aquela que havia dividido o berço, o colo, o amor dos pais, as atenções, a mesa comigo. Pela recepção vimos: ela não esqueceu. Quando saiu de casa, aos sete anos, seu amor estava solidificado, enraizado. Criança sabe das coisas. E como sabe. Conversamos animadamente por uma tarde inteira. Os adultos ficavam sérios, sorriam, ficavam sérios novamente. Tentaram férias, fins de semana. Nada feito. Sem apego ou cobranças.

Depois daquele dia, nunca mais. Em uma conversa de comadres, certa vez, surgiu o boato de que a mãe havia morrido. Mas nada da menina. Durante todos esses anos eu busco um sinal, qualquer pista que me leve a ela. Quero saber como é seu rosto, ouvir sua voz, ver aquele sorriso, saber se tem filhos, se é feliz. E, além disso, tenho imenso desejo de um abraço, depois de perguntar se ela também não nos esqueceu.


© 2007 Jornal Diário do Sul. Todos os direitos reservados. 
Desenvolvimento: Adriano Fernandes da Silva / André Henrique