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A caixinha de fósforos
A caixinha de fósforos era
muito esperada. O ano inteiro nós sonhávamos com ela, que
trazia o presente diferente. Ele sabia como agradar as
crianças, tinha o dom de tornar tudo encantado, diferente.
Unia o polegar e o indicador e transformava uma sombra na
parede em um pássaro, mudava os movimentos e nos dava o
animal que quiséssemos.
Nos ensinou a construir
mini-represas no quintal da casa de minha avó, contava
histórias de dar medo, mas que nós gostávamos mesmo assim.
Passaram por nossos olhos a
"Perna Cabeluda", a "Menina Sem Nome", o "Boi Tatá", a "Mula-sem-cabeça",
a "Cabra Alada" e muitos outros personagens que ele buscava
nas lendas de sua infância, revestia com mais fantasia e nos
entregava, nas noites mornas em que toda a família se reunia
para festejar as férias.
Mas eu falava da caixinha
de fósforos, que não tinha nenhum palito dentro e, sim,
dinheiro para que pudéssemos aproveitar o parquinho, com
seus brinquedos enferrujados, rangendo a noite inteira,
abafados pela música estridente que chegava a doer nos
ouvidos, mas que nos levava quase ao êxtase.
Soltos, em meio à multidão
que se espremia, queríamos gastar tudo na roda gigante e na
pescaria, sonhando que poderíamos levar aquele urso enorme
para casa como recompensa.
Era a "Festa do Bolinha",
regida pela música noite a dentro: "Eu ontem fui à festa na
casa do Bolinha, confesso não gostei dos modos da Glorinha...",
contando peripécias da turma da Luluzinha em versos
ingênuos.
Eram esses os heróis da
nossa infância e era essa a nossa melhor festa. Meu tio
ensinou, através de gestos simples, como se pode encher
alguém de amor com tão pouco. Ensinou também a buscar
sonhos, a construir histórias e a aquecer os corações com
palavras. Sempre quis ter aquele charme todo com as minhas
sobrinhas. Queria saber contar histórias com todo aquele
fascínio, inventar presentes diferentes _ que nenhuma loja
poderia vender _ para que os dias das minhas pequenas fossem
tão felizes quanto aqueles meus dias.
Por algum tempo pensei que
não adiantaria: seria uma tia que mora muito longe, que
chega nos Natais e vai embora quando o verão está começando.
Estaria bem longe do planejado... Até que ganhei mais um
presente, bem daqueles diferentes mesmo e que me fez
acreditar que eu consegui. No caderninho de escola, mandado
pela irmã de longe, a tarefa do dia era desenhar o que a
pequena aprendiz sonhava. E lá estava: a tia que mora
distante (com fartos cachos descendo sobre os ombros, mãos
dadas com o ser minúsculo) e a frase sob os pés das
criaturas no papel: "Quero ser como a minha tia".
Ganhei o dia, a noite e
todo o resto da minha vida naquele caderno, naquelas
palavras, escritas com letrinhas mal traçadas. Nada pode me
dar maior prova de que, apesar de tantos defeitos acumulados
ao longo dos anos, dei certo nessa vida, sim. Nenhuma
palavra feia pode apagar esse amor que nos une, vence
estradas e me faz mais forte, aqui, bem dentro de mim.
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