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Gooooooooooooooooooooolaço
Vamos combinar? Copa é
exagero. Torcidas abusam. Além de bandeiras, camisetas e
bonés, pintam cabelos, sobrancelhas e bigodes de
verde-amarelo. O comércio fecha. Padarias, lojas,
supermercados, bancas de revistas firmam pacto com o
freguês. Eles não abrem as portas. O cliente não os procura.
A turma da imprensa não fica atrás. Para manter a atenção do
leitor, ouvinte ou telespectador, exagera. Qualquer palavra,
qualquer gesto, qualquer murmúrio de jogadores ou do técnico
viram crônica. O valor afetivo dos vocábulos entra em
cartaz. As palavras deixam de ser empregadas com a
significação real. Passam a ter a marca do sentimento. Em
bom português: o sentido abre alas para a sensibilidade. A
descarga de paixão se dá com mais força nos sufixos. Os
Kakás da vida não jogam bola. Jogam um bolão. Não fazem gol.
Fazem golaço. A partida, mesmo raquítica, vira partidaço. O
gol ganha fôlego de baleia. É
gooooooooooooooo-ooooooooooolaço.
Amor e ódio
A vedete das vedetes do exagero é o sufixo -aço. As três
letrinhas transmitem ideia de grandeza e intensidade. Além
do furor na Copa, aparecem no dia a dia de pequeninos e
grandões. A mulher pode medir 1,5m. Mas o apaixonado a
considera um mulheraço. A criatura pode não ter uma conta
bancária polpuda. Mas cobiçosos a chamam de ricaço. A
pancada pode ter sido branda. Mas o mais-mais a classifica
de coronhaço.
E assim, de sufixo em sufixo, de aço em aço, a descarga das
paixões ganha mundo. Com eles, manifestam-se os dois
sentimentos que agitam a alma. No fundo, no fundo, os
diabinhos se resumem a dois. De um lado, o amor. De outro, a
aversão. Paizinho e mãezinha, paizão e mãezona não querem
dizer pais pequenos ou pais grandes. Mas pais muito
queridos.
Os vilões
Os pernas de pau da Copa? Não, não são jogadores. São
árbitros. Eles conjugam o verbo errar. Desatentos, anulam
gols legítimos. Míopes, não enxergam faltas, impedimentos e
pênaltis. Jurássicos, recusam a ajuda da tecnologia.
Resultado: foram o 13º jogador da Alemanha e da Argentina.
Criticada, a Fifa pediu desculpas. Fez uma visitinha à
regência do verbo bem-educado. Duas dicas ganham destaque.
Uma: a gente desculpa alguém ou alguma coisa (desculpou o
atraso, desculpou o filho). A outra: a
gente se desculpa de alguma coisa: A Fifa se desculpou das
barbeiragens. Ela se desculpou de ter cometido erros
primários. Resumo da opereta: Casa arrombada, portas
trancadas.
Sem trocar as bolas
Amanhã dois aa se encontram. De um lado, a Argentina. De
outro, a Alemanha. Os brasileiros estão divididos. Alguns
torcem contra os vizinhos. Outros, a favor. Uns e outros têm
suas razões. “É nosso quintal”, alegam os amigos. “Não quero
ver Maradona peladão correndo na Avenida 9 de Julho”,
justificam os opositores.
Nós respeitamos os motivos
de cada um. Um pormenor, porém, deve ficar acima dos prós e
contras. É o adjetivo pátrio dos hermanos. Generalizar é
proibido. Quem nasce na Argentina é argentino. Quem nasce em
Buenos Aires, portenho (derivado de porto, o Porto de Buenos
Aires). É mais ou menos como paulista (quem nasce no Estado
de São Paulo) ou paulistano (quem nasce na capital
paulista).
Leitor pergunta
Sou fã do Manhattan
Connection. Gosto da descontração do programa e dos
comentários divertidos. Aprecio, sobretudo, os assuntos do
Pedro Andrade. Ele mostra a cara humana e cultural de Nova
York. É interessante. No domingo, falou do Metropolitan
Museum. Em certo momento, disse: “Com mais de duas milhões
de obras, o Metropolitan é uma das instituições mais
respeitadas do mundo”. Duas milhões? Tropeçou na
concordância, não?
Talita Araújo, Ceilândia. Milhão é vítima do
complemento. Basta ser seguido de nome feminino para que lhe
mudem o sexo. É duas milhões de crianças pra cá, as milhões
de criaturas pra lá, muitas milhões de declarações pracolá.
Nada feito. Milhão é machinho e não abre. Ninguém diz, por
exemplo, uma milhão de vezes. Diz um milhão de vezes. Pedro
Andrade teria tirado nota 10 se tivesse informado: Com mais
de dois milhões de obras, o Metropolitan é uma das
instituições mais respeitadas no mundo.
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