Quinta-feira,
06 de janeiro de 2004
Ano 1 - edição 184

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Coluna atualizada às segundas e quintas

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Recado
"A língua portuguesa é difícil? Não tenho nada com isso. Queixem-se ao Camões." João Ubaldo Ribeiro


Gooooooooooooooooooooolaço

Vamos combinar? Copa é exagero. Torcidas abusam. Além de bandeiras, camisetas e bonés, pintam cabelos, sobrancelhas e bigodes de verde-amarelo. O comércio fecha. Padarias, lojas, supermercados, bancas de revistas firmam pacto com o freguês. Eles não abrem as portas. O cliente não os procura. A turma da imprensa não fica atrás. Para manter a atenção do leitor, ouvinte ou telespectador, exagera. Qualquer palavra, qualquer gesto, qualquer murmúrio de jogadores ou do técnico viram crônica. O valor afetivo dos vocábulos entra em cartaz. As palavras deixam de ser empregadas com a significação real. Passam a ter a marca do sentimento. Em bom português: o sentido abre alas para a sensibilidade. A descarga de paixão se dá com mais força nos sufixos. Os Kakás da vida não jogam bola. Jogam um bolão. Não fazem gol. Fazem golaço. A partida, mesmo raquítica, vira partidaço. O gol ganha fôlego de baleia. É gooooooooooooooo-ooooooooooolaço.  

Amor e ódio
A vedete das vedetes do exagero é o sufixo -aço. As três letrinhas transmitem ideia de grandeza e intensidade. Além do furor na Copa, aparecem no dia a dia de pequeninos e grandões. A mulher pode medir 1,5m. Mas o apaixonado a considera um mulheraço. A criatura pode não ter uma conta bancária polpuda. Mas cobiçosos a chamam de ricaço. A pancada pode ter sido branda. Mas o mais-mais a classifica de coronhaço.
E assim, de sufixo em sufixo, de aço em aço, a descarga das paixões ganha mundo. Com eles, manifestam-se os dois sentimentos que agitam a alma. No fundo, no fundo, os diabinhos se resumem a dois. De um lado, o amor. De outro, a aversão. Paizinho e mãezinha, paizão e mãezona não querem dizer pais pequenos ou pais grandes. Mas pais muito queridos.

Os vilões
Os pernas de pau da Copa? Não, não são jogadores. São árbitros. Eles conjugam o verbo errar. Desatentos, anulam gols legítimos. Míopes, não enxergam faltas, impedimentos e pênaltis. Jurássicos, recusam a ajuda da tecnologia. Resultado: foram o 13º jogador da Alemanha e da Argentina.
Criticada, a Fifa pediu desculpas. Fez uma visitinha à regência do verbo bem-educado. Duas dicas ganham destaque. Uma: a gente desculpa alguém ou alguma coisa (desculpou o atraso, desculpou o filho). A outra: a gente se desculpa de alguma coisa: A Fifa se desculpou das barbeiragens. Ela se desculpou de ter cometido erros primários. Resumo da opereta: Casa arrombada, portas trancadas.  

Sem trocar as bolas
Amanhã dois aa se encontram. De um lado, a Argentina. De outro, a Alemanha. Os brasileiros estão divididos. Alguns torcem contra os vizinhos. Outros, a favor. Uns e outros têm suas razões. “É nosso quintal”, alegam os amigos. “Não quero ver Maradona peladão correndo na Avenida 9 de Julho”, justificam os opositores.

Nós respeitamos os motivos de cada um. Um pormenor, porém, deve ficar acima dos prós e contras. É o adjetivo pátrio dos hermanos. Generalizar é proibido. Quem nasce na Argentina é argentino. Quem nasce em Buenos Aires, portenho (derivado de porto, o Porto de Buenos Aires). É mais ou menos como paulista (quem nasce no Estado de São Paulo) ou paulistano (quem nasce na capital paulista).

Leitor pergunta

Sou fã do Manhattan Connection. Gosto da descontração do programa e dos comentários divertidos. Aprecio, sobretudo, os assuntos do Pedro Andrade. Ele mostra a cara humana e cultural de Nova York. É interessante. No domingo, falou do Metropolitan Museum. Em certo momento, disse: “Com mais de duas milhões de obras, o Metropolitan é uma das instituições mais respeitadas do mundo”. Duas milhões? Tropeçou na concordância, não?
Talita Araújo, Ceilândia. Milhão é vítima do complemento. Basta ser seguido de nome feminino para que lhe mudem o sexo. É duas milhões de crianças pra cá, as milhões de criaturas pra lá, muitas milhões de declarações pracolá. Nada feito. Milhão é machinho e não abre. Ninguém diz, por exemplo, uma milhão de vezes. Diz um milhão de vezes. Pedro Andrade teria tirado nota 10 se tivesse informado: Com mais de dois milhões de obras, o Metropolitan é uma das instituições mais respeitadas no mundo.
 


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