No começo dos anos 1980, publiquei
um artigo no Jornal de Brasília, com o título "O Alasca
Verde". Nele, alertava para o risco da venda da Amazônia
como forma de pagar a dívida externa, nos mesmos moldes do
que ocorrera em 1867, quando a Rússia vendeu o Alasca para
os EUA. Em 2005, escrevi outro artigo no Jornal do Commercio,
com o título "Alasca Deserto" dizendo que a troca da dívida
ainda não tinha se realizado, mas que, naquele intervalo de
tempo, parte considerável da floresta fora destruída. Como
se disséssemos ao mundo que a Amazônia é nossa e temos o
direito de destruí-la.
Chegamos a 2008, e a Amazônia
continua sob cobiça internacional. Com o aquecimento global,
nossas florestas se tornaram uma reserva que precisa ser
mantida. A incorporação da Amazônia, por uma nação ou pela
comunidade internacional, passou a ser defendida por alguns
como único modo de preservá-la.
Não há dúvida quanto ao nosso
direito de preservar o território amazônico. Não podemos
abrir mão desse direito, nem do compromisso para com as
gerações futuras. Os brasileiros não perdoarão os
governantes que contribuírem para perdermos a soberania
sobre a Amazônia. Mas isso não nos dá o direito de destruir
a floresta, como temos feito.
A Terra é um imenso condomínio,
cada país com soberania e responsabilidades, como moradores
de apartamentos. Os países não podem usar sua soberania
contra os interesses dos outros. Os EUA, a Europa e a China
não têm o direito de continuar destruindo a natureza com a
avidez da indústria que atende à orgia consumista. O efeito
estufa deriva muito mais da imensa produção industrial dos
países ricos do que da destruição da Amazônia. Mesmo assim,
os EUA continuam se negando a assinar o Protocolo de Kyoto,
que tenta colocar um mínimo de disciplina no processo
industrial do mundo.
Não podemos seguir o péssimo
exemplo deles. Precisamos demonstrar que a Amazônia é nossa
e por isso devemos protegê-la como patrimônio brasileiro e
da humanidade, e não apenas como um território. Mas cuidando
para não transformá-la em deserto.
Lamentavelmente, isso será
difícil. As estatísticas mostram que as reservas florestais
da Amazônia caminham rapidamente para o desaparecimento. De
um lado, líderes civis e empresários defendem a exploração
do que ainda existe. De outro, a estratégia é proteger a
Amazônia ocupando-a o mais rápido possível, mesmo que isso
signifique destruir da floresta. Um grupo pensa que é melhor
transformar suas árvores em madeira e dinheiro, e suas
terras em commodities, como a soja ou o etanol, do que
conservar a floresta. São os patriotas gananciosos. Outro
considera melhor um território desértico soberano do que uma
floresta sob influência estrangeira: são os patriotas
suicidas. Por outro lado, há ONGs e sertanistas dispostos a
abrir mão da soberania para manter a floresta. São os
humanistas antipatriotas.
A destruição da Amazônia ocorre,
sobretudo por falta de determinação nacional de optar por um
desenvolvimento que respeite e mantenha o patrimônio
brasileiro e da humanidade. A soberania não deve ser apenas
territorial, mas também patrimonial. Nesse caso, a
conservação é uma condição básica da soberania. E não
somente para o Brasil, mas para toda a humanidade.
Transformar a nossa Amazônia em
deserto é tão grave quanto entregá-la. A Amazônia não pode
ser um Alasca Verde, como se dizia há 25 anos, nem um Alasca
Deserto, como ela começa a parecer. Para isso, é preciso
combinar patriotismo e humanismo, e inventar no Brasil o
"patriomanismo".