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O
Adeus ao Papa
1920 - 2005 |
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Textos: AGÊNCIA ESTADO / Gráficos: AGÊNCIA ESTADO / GRAFFO |
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“Nosso Santo Padre voltou para a casa do Pai”
ROMA - Já era noite alta em Roma quando o
arcebispo Leonardo Sandri apareceu à frente da multidão na
Praça São Pedro. Cem mil pessoas esperavam. "Irmãos e
irmãs", começou o subsecretário de Estado do Vaticano,
ladeado por cardeais. "Nosso Santo Padre João Paulo voltou
para a casa do Pai." O anúncio foi acolhido com um longo
aplauso. Os sinos da Basílica de São Pedro badalaram,
seguidos pelos das outras igrejas de Roma. Depois, o
silêncio voltou a reinar na praça. E a multidão chorou.
O papa morreu olhando para a janela de seu
apartamento, através da qual durante incontáveis vezes
abençoara os fiéis, ao longo dos últimos 26 anos. Apesar
do coração fraco e da respiração difícil, João Paulo viveu
momentos intermitentes no seu último dia. "O Santo Padre
morreu esta noite às 21h37 (16h37 em Brasília) em seu
apartamento particular", informou a nota oficial,
distribuída para os jornalistas via correio eletrônico
pelo porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro Valls. "Todos
os procedimentos previstos na Constituição Apostólica
Universi Dominici Gregis, promulgada por João Paulo II em
22 de fevereiro de 1996, já foram colocados em prática",
assegurou o comunicado, referindo-se à seqüência de
providências a ser observada nas próximas duas ou três
semanas, até a escolha de seu sucessor.
Seguindo o ritual da Santa Sé, a morte do
papa foi atestada pelo carmelengo Eduardo Martinez Somalo,
a maior autoridade administrativa da Igreja, na ausência
do papa. Em seguida, o camareiro-chefe retirou o anel do
pescador do dedo do pontífice, que deve ser quebrado,
juntamente com o selo do papa, para que não sejam usados
por mais ninguém.
Dois milhões de fiéis são esperados nos
funerais. Pela regra, ele deve ocorrer dentro de quatro a
seis dias, e o corpo deve ser exposto por três. Também na
segunda-feira se realizará a primeira reunião de cardeais
para preparar o próximo conclave, que elegerá o sucessor
de João Paulo.
A morte do papa poucas horas antes da
passagem para o domingo, o dia do descanso semanal
católico, revestiu-se de simbolismo. "Avizinha-se a aurora
do domingo, dia do Senhor, observou o cardeal Sodano.
"Alegra-nos pensar no Santo Padre João Paulo II na glória
de Deus acolhido na casa do Pai, ressurgido e vivo".
João Paulo II representou para o mundo bem
mais do que o líder máximo de uma igreja com 1,1 bilhão de
seguidores. Quando assumiu o pontificado, em 1978, a
Igreja católica experimentava um momento de lassidão
doutrinária, instaurado pelo Concílio do Vaticano 2º
(1962-65). O papa tomou a peito a tarefa de ordenar e
unificar a Igreja sob um dogma claro e inquestionável. E o
fez com visível gosto, para admiração de uns e
perplexidade de outros.
Segundo Navarro-Valls, as pessoas mais
próximas ao papa lhe informaram que muitos jovens estavam
na Praça São Pedro desde que souberam da piora em sua
situação. João Paulo II teria então se referido a esses
jovens ao tentar se pronunciar: "Eu procurei por vocês.
Agora vocês vieram a mim. E eu agradeço a vocês". (Jamil
Chade - AE)
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João Paulo II canonizou Santa Paulina em 2002
SÃO PAULO - Nenhum papa fez tantos santos como João Paulo II
na história da Igreja. Durante os 26 anos de seu
pontificado, ele canonizou 482 e beatificou 1.338 pessoas de
todos os continentes, entre os quais Madre Paulina do
Coração Agonizante de Jesus. Embora tenha nascido na Itália,
na aldeia de Vigolo Vattaro, em Trento, então sob domínio da
Áustria, ela é venerada como a primeira santa do Brasil.
Amabile Lúcia Visintainer, a futura Santa
Paulina, emigrou com a família para Santa Catarina em 1875,
aos nove anos de idade. Foi ali, na região onde se localiza
atualmente Nova Trento, que ela fundou a Congregação das
Irmãzinhas da Imaculada Conceição, para cuidar de doentes e
da educação de crianças pobres.
O presidente Fernando Henrique Cardoso
assistiu à cerimônia de canonização na Praça de São Pedro,
no Vaticano, na manhã de 19 de maio de 2002. No dia
seguinte, ele e sua comitiva tiveram uma audiência
particular com João Paulo II. Cerca de 2.500 brasileiros
viajaram a Roma para assistir à cerimônia.
João Paulo II, que havia beatificado Madre
Paulina em Florianópolis, uma das escalas de sua segunda
viagem ao Brasil, em 1991, beatificou também Frei Antônio de
Sant’Ana Galvão, em outubro de 1998. Paulista de
Guaratinguetá, Frei Galvão era frade franciscano e viveu em
São Paulo, onde construiu o Convento da Luz.
Em março de 2000, João Paulo II proclamou
beatos mais 30 brasileiros, os 30 mártires de Uruaçu, no Rio
Grande do Norte, que foram assassinados por invasores
holandeses em 1645, por terem se recusado a renegar a fé
católica.
No governo do papa Karol Wojtyla, a Sagrada
Congregação para a Causa dos Santos acelerou os processos de
beatificação e de canonização, normalmente muito morosos.
Dois dos novos beatos que João Paulo II
elevou aos altares foram os seus predecessores Pio IX e João
XXIII, papas de destaque na história recente da Igreja.
Entre os santos modernos, ele incluiu Padre Pio, frade
capuchinho italiano que morreu em 1968 e o fundador do Opus
Dei, monsenhor José Maria Escrivá de Balaguer, morto em
1975. Seus processos correram em tempo recorde, por empenho
pessoal de João Paulo II.
Brasil foi o destino de três viagens em 26 anos
São Paulo - Das 104 viagens fora da Itália
que João Paulo II fez em 26 anos de pontificado, três
tiveram como destino o Brasil. Nas duas primeiras, em 1980 e
1991, o papa percorreu o País de Norte a Sul, para visitar
23 cidades, todas capitais de Estados, com exceção apenas de
Aparecida (SP), onde consagrou o Santuário Nacional de Nossa
Senhora Aparecida, dando-lhe o título e os privilégios de
basílica. A terceira viagem, em outubro de 1997,
restringiu-se ao Rio, sede do 2.º Encontro Mundial do Papa
com as Famílias. Rio, Brasília e Salvador foram as três
únicas cidades que entraram duas vezes no roteiro.
Karol Wojtyla, que havia assumido o governo
da Igreja em outubro de 1978, era um homem de porte atlético
e jovial quando se ajoelhou para beijar a terra no aeroporto
de Brasília, em 30 de junho de 1980. Era um polonês de 60
anos que falava português com bastante desembaraço, capaz de
interromper seus discursos com improvisos jocosos que
levavam as multidões ao delírio. Recebido pelo general João
Batista Figueiredo, o último general-presidente do regime
militar, passou por cima do protocolo diplomático para dar o
seu recado aos governantes e fiéis do maior país católico do
mundo.
Celebrou uma missa campal na Esplanada dos
Ministérios e saudou a Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) como "o corpo episcopal mais numeroso do
mundo". A CNBB, então sob a presidência de d. Ivo
Lorscheiter, de Santa Maria (RS), recebeu apoio e
solidariedade do papa, mas também ouviu reprimendas. Na
reunião de Brasília, João Paulo II recomendou cautela contra
excessos da Teologia da Libertação e advertiu para os riscos
de manipulação política do evangelho.
Era só o começo de uma peregrinação que, nos
12 dias seguintes, lotaria praças e estádios, de Porto
Alegre a Manaus, onde quer que João Paulo II aparecesse. O
papa era uma grande novidade, pois estava fazendo ainda a
sua sétima viagem apostólica ou visita pastoral fora da
Itália. (José Maria Mayrink - AE)
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Conclave escolhe o primeiro papa do milênio
ROMA - O novo líder da Igreja Católica será escolhido por um
grupo de 120 cardeais, representando 54 países. Formam o
chamado colégio cardinalício, do qual não podem participar
cardeais com mais de 80 anos de idade.
Os cardeais, também chamados de príncipes
da Igreja, constituem uma elite, um dos principais símbolos
da monarquia absoluta que é a Santa Sé, com regulamentos e
rituais milenares como o do conclave. Se a Igreja Católica
"não é uma democracia", como já disse o próprio papa João
Paulo II, o único momento em que mais se aproxima dela é
justamente no conclave - em que os cardeais exprimem a
própria vontade e decidem.
O conclave é realizado sob um clima de
absoluto segredo. Os cardeais eleitores se reúnem num prazo
máximo de 20 dias após a morte do pontífice, para assistir à
missa votiva "pro eligendo papa". Sob estreita vigilância,
para se não comunicarem com ninguém no caminho, vão em
procissão até a suntuosa Capela Sistina. No caminho, invocam
a inspiração do Espírito Santo com o cântico Veni Creator.
A Capela Sistina, sede dos conclaves
desde que foi construída no século 15, é a capela particular
dos papas e o ambiente mais célebre dos palácios vaticanos.
Durante as reuniões de votação, os cardeais se distribuem em
duas filas laterais. Cada um tem uma poltrona de madeira com
escrivaninha coberta de feltro bege e vermelho.
Na frente do altar, sob o afresco O Juízo
Final, de Michelangelo, são colocadas três mesas: uma para a
urna e duas para os escrutinadores. A estufa onde são
queimadas as cédulas depois da contagem dos votos fica no
fundo da capela. A queima é feita junto com os papéis usados
pelos cardeais para anotações, isto para impedir que se
conheçam os alinhamentos políticos que caracterizam a
eleição.
Do lado de fora, a chaminé concentra as
atenções do mundo inteiro, pois é através dela que as
pessoas acompanham a votação e ficam sabendo se o novo papa
já foi eleito. Se a fumaça sair preta, quer dizer que ainda
não há um novo pontífice. Quando os cardeais escolhem o
nome, a fumaça torna-se branca simplesmente acrescentando
palha umedecida às cédulas queimadas.
Eliminadas as antigas votações por
aclamação e por compromisso, o sucessor de João Paulo II
será eleito por voto escrito - escrutínio -, com a maioria
de dois terços.
Batalhas - É interesse do Vaticano
que o conclave seja rápido, para evitar que a opinião
pública pense que os cardeais estão travando duras batalhas,
o que de fato pode ocorrer. Caso não cheguem a um acordo,
depois de três dias de escrutínios completos, com duas
votações pela manhã e duas à tarde, será feita uma pausa. Se
permanecer o impasse, quando se retomarem as votações, são
previstas três séries de sete escrutínios com uma pausa após
cada uma delas. Não se obtendo resultado, passa-se à eleição
por maioria absoluta entre os dois nomes mais votados.
Os cardeais devem manter segredo absoluto
sobre tudo o que diz respeito ao conclave - nome que se dá à
assembléia que elege o pontífice. A palavra, usada desde o
século 13, quando foi instituído o isolamento para a
votação, vem do latim e quer dizer "sob chaves" ou "quarto
fechado", para evidenciar o caráter secreto de toda a
operação.
O sigilo continua valendo, apesar dos
séculos, e foi reforçado por João Paulo II na constituição
apostólica de 1996 que trata da sucessão. Quem não respeita
o segredo corre o risco de ser excomungado. A preocupação é
tão grande que, antes do início da votação, a Capela Sistina
é minuciosamente vasculhada por técnicos especializados, à
procura de eventuais sistemas de gravação secretos que podem
ter sido instalados por espiões.
Para evitar qualquer contato com o
exterior, aos cardeais é vetado o uso de telefones
celulares, computadores e gravadores. E para não serem
influenciados nem perderem a concentração, os eleitores são
proibidos de ler jornais, ver televisão e ouvir rádio
Pode parecer muito rigoroso, mas não é
nada em comparação com os tempos passados, quando os
eleitores dos papas eram confinados em cubículos sem
aquecimento e serviços de higiene. O conclave que que elegeu
Gregório X em 1271 demorou três anos e os cardeais só
chegaram a um acordo sob tortura: primeiro ficaram sem
comida e depois sem o teto onde estavam hospedados. E era
inverno.
O conclave que elegeu João Paulo II também não foi o
máximo do conforto, apesar de ter sido em 1978. Os 123
eleitores ficaram alojados no Palácio Apostólico, onde se
adaptaram escritórios da Secretaria de Estado, corredores e
salas criando celas sem janela nem banheiro. O refeitório
foi improvisado nada menos que nas magníficas salas de
Rafael. (Assimina Vlahou - AE)
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Wojtyla: estilo de papa informal
ROMA - Após ser escolhido como 263º sucessor de São Pedro,
quando era relativamente jovem, com 58 anos, João Paulo II,
nome que ele mesmo havia escolhido, assumiu o papado com
extraordinária tranquilidade, coragem, satisfação, bom
humor, informalidade sem precedentes e a firme decisão de
dirigir e remodelar a Igreja segundo seus critérios
inflexíveis. Ao contrário de muitos papas anteriores, João
Paulo II não revelou dúvidas, hesitação, modéstia (falsa ou
de qualquer outro tipo) ou incertezas desde o momento de sua
eleição como o primeiro pontífice não italiano em 456 anos.
Sem perda de tempo, o novo papa lançou-se a
um turbilhão de atividades globais eclesiásticas,
litúrgicas, políticas e diplomáticas que nunca pararam - e
só se reduziram por causa da idade, da fraqueza e da saúde
cada vez mais frágil.
Quando um amigo perguntou sobre sua saúde no
final dos anos 90, tempo em que Wojtyla arrastava os pés em
vez de andar, o papa respondeu com um brilho brincalhão no
olhar: "Estou ótimo - da cabeça para cima!" Sua mente e
inteligência continuavam perfeitamente lúcidas, alertas e
brilhantes.
Durante o mais longo pontificado do século
20, um dos mais longos de todos os tempos, que entrou numa
terceira década e no novo século, João Paulo II nunca mudou
em termos de devoção religiosa, filosofia fundamental,
idéias e relacionamento com as pessoas. A fé absoluta que
ele tinha em sua própria sabedoria - algumas pessoas
chamavam-na de obstinação ou algo pior - e seu assombroso
ativismo em todos os setores imagináveis, sagrados e
profanos, exerceram profunda influência nos assuntos da
Igreja e em grande parte do mundo além dela na segunda
metade do século.
Ele tinha uma impressionante visão da
História e se tornou um participante diplomático
fundamental. Mas sob muitos aspectos era um homem
misterioso: amistoso, mas imprevisível em seus atos e
indecifravelmente reservado. Historiadores futuros vão pesar
e avaliar esse pontificado levando a vantagem da
perspectiva, da visão retrospectiva e de materiais que por
certo virão à luz no momento adequado. O que já está claro,
no entanto, é que João Paulo II foi um dos papas mais
notáveis e fascinantes nos dois milênios de história da
Igreja, fazendo lembrar Gregório, o Grande, o modelo em que
ele se inspirou, que reinou no século 6.º. É prematuro,
claro, proclamar João Paulo II como um "grande papa", embora
milhões de seus admiradores o considerem como tal - ao passo
que outros adotaram opinião oposta, desde a direita até a
esquerda do espectro político de que a Igreja é integrante
em grande parte. (Tad Szulc - AE)
Papa conquistou multidões com sua cultura singular
ROMA - O que fez João Paulo II tão
interessante foram, antes de mais nada, seu vigoroso
intelecto e acuidade cultural, sua formação singular por ter
vivido sob a ocupação da Polônia pelos nazistas e sob o
comunismo no pós-guerra. Também o foram suas experiências de
operário, padre de paróquia, conselheiro acadêmico,
professor e escritor sobre ética, com dois títulos de
doutorado, poeta, dramaturgo e ator, poliglota, homem da
vida ao ar livre, atleta, esquiador, viajante, político
extremamente talentoso e pacificador diplomático que ajudou
a acabar com a Guerra Fria.
Nenhum papa em época recente nem seus
adversários na eleição de 1978 tiveram credenciais tão
assombrosas. E ele era bonitão com seu jeito eslavo,
encantador.
Mas João Paulo II foi extremamente
controvertido, porque cultivava idéias e opiniões que
agradavam a grandes segmentos do 1 bilhão de católicos do
mundo e ofendiam outros em assuntos que iam do aborto à
contracepção artificial.
Normalmente, João Paulo II não pedia
conselhos, mas a teologia era uma exceção, e ele foi
inquestionavelmente influenciado pelo cardeal Joseph
Ratzinger, alemão que foi Prefeito da Congregação para a
Doutrina da Fé e também principal teólogo do Vaticano.
O papa conhecia havia décadas a linha dura
irredutível de Ratzinger e tinha absoluta confiança em suas
opiniões sobre teologia. As opiniões do cardeal eram tão
rígidas e quase medievais que dentro do Vaticano havia quem
chamasse sua congregação de Nova Inquisição. Ainda assim, a
porta do papa ficava aberta a liberais e moderados da Igreja
e seculares: ele precisava saber o que todos pensavam.
No cenário mundial, João Paulo II foi um
incansável defensor da democracia política, dos direitos
humanos e da justiça social e crítico declarado do
capitalismo "desenfreado" que ele julgava não representar
"uma verdadeira melhora em relação ao marxismo". Lamentava o
materialismo, o consumo de drogas e o alcoolismo, advertindo
o Ocidente contra a sua "cultura da morte". Ele não era fã
dos EUA como sociedade.
A liberdade religiosa em toda parte era uma
das principais preocupações de João Paulo II, que a
manifestava em toda ocasião. Portanto, foi para os judeus o
melhor dos papas ao pregar contra o anti-semitismo com
fervor exaltado. Referindo-se aos judeus como "nossos irmãos
mais velhos", ele insistia em lembrar às suas platéias que o
Conselho Vaticano 2.º, em meados da década de 60, havia
proclamado que os judeus não tiveram culpa na crucificação
de Cristo e bradava dizendo que era anticristão ser
anti-semita. Ele rezou muitas vezes no campo de concentração
de Auschwitz, não muito longe de sua cidade natal polonesa,
em memória dos milhões de judeus e outros mortos ali pelos
nazistas.
João Paulo II foi o primeiro papa a
atravessar o Rio Tibre e visitar a sinagoga de Roma. Onde
houvesse comunidades judaicas, ele se reunia com seus
representantes quando viajava ao estrangeiro.
No quinqüagésimo aniversário do levante dos
judeus no gueto de Varsóvia em 1944 contra os ocupantes
nazistas, o papa presidiu, num grande salão do Vaticano, um
concerto em memória do episódio, durante o qual um menorá -
o santo candelabro judaico com sete velas - foi aceso pela
primeira vez num recinto da Santa Sé e a prece funerária
Kaddish foi recitada. João Paulo II sentou-se entre o
presidente da Itália e o grande rabino de Roma, rodeado por
sobreviventes dos campos de concentração. Foi uma das mais
comoventes cerimônias realizadas no Vaticano em muito, muito
tempo. (TS - AE)
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João Paulo II viveu como poucos o século 20
ROMA - Na tarde de 16 de novembro de 1978, após dois dias de
deliberações, o colégio cardinalício definiu o nome do novo
papa. O representante do grupo, cardeal Pericle Felice,
deixou a sala e dirigiu-se à multidão reunida na Praça de
São Pedro para anunciar em latim, língua oficial da Igreja
Católica Apostólica Romana, a novidade: "Habemus papam."
A multidão respondeu com aplausos e
silenciou em seguida aguardando o nome. Esperava-se que
fosse causar uma manifestação de alegria ainda maior. Mas
não foi o que aconteceu. Quando o cardeal disse Karol
Wojtyla, as pessoas se entreolharam, confusas, como se
perguntassem: quem?
O polonês era desconhecido da maioria dos
católicos. Nem jornalistas veteranos na cobertura de
assuntos do Vaticano haviam incluído seu nome nas listas dos
papáveis. Ele também não figurava no material distribuído
dias antes pela assessoria de imprensa da Cúria Romana, com
as biografias dos 36 cardeais com maiores chances de serem
eleitos.
Nas horas seguintes, porém, emergiriam da
Polônia histórias notáveis de um homem que parecia ter
passado toda vida se preparando para aquela missão. No
período de 32 anos, na travessia entre Cracóvia, cidade em
que se ordenou, e Roma, onde os cardeais o escolheram para o
trono de Pedro, poucos líderes religiosos se destacaram como
ele no trabalho pastoral, intelectual e político.
Melancolia e solidão - João Paulo II
nasceu no dia 18 de maio de 1920, na pequena Wadowice.
Recebeu o nome do pai, Karol Wojtyla, um oficial reformado
do exército polonês, católico praticante e de de hábitos
reservados. Sua mãe, Emilia, era uma dona de casa de saúde
frágil, melancólica, que não se conformava com a morte de
uma filha, recém-nascida, em 1914.
A infância e a juventude do futuro papa
foram marcadas pela tragédia familiar. Em 1929, pouco antes
de completar o nono aniversário, ele perdeu a mãe, vítima de
uma doença nos rins. O irmão mais velho morreria dois anos
depois, com escarlatina. A morte do pai ocorreu semanas
antes de Karol completar 22 anos, levando-o a uma profunda
sensação de solidão, segundo seus biógrafos. Ele ficou
sozinho, sem parentes.
A vocação sacerdotal despertou num período
difícil, logo após a invasão da Polônia pelas tropas de
Hitler. A Igreja Católica, que em outras invasões do país
funcionara como fator de identidade nacional, preservando a
cultura e estimulando movimentos de libertação, começou a
ser perseguida. Os nazistas fecharam os seminários e
assassinaram centenas de padres e freiras, acusados de
traição.
A Igreja resistiu e continuou a formar
sacerdotes em seminários clandestinos. Foi num deles que
Wojtyla começou. Trabalhava durante o dia como operário numa
fábrica de soda cáustica e à noite tinha aulas com os
padres. Nessa época sofreu um acidente que o deixou pela
primeira vez de frente com a morte. Atropelado por um carro
de guerra alemão, teve uma concussão cerebral e ficou
inconsciente durante nove horas.
Foi ordenado padre no dia 1º de novembro de
1946, Dia de Todos os Santos. Sua capacidade intelectual e
dedicação aos estudos chamou a atenção do arcebispo de
Cracóvia e futuro cardeal Adam Stefan Sapieha, que se tornou
seu protetor. Logo após a ordenação, ele despachou Wojtyla
para Roma onde faria os estudos de pós-graduação.
A carreira na Igreja foi meteórica.
Tornou-se bispo aos 38 anos e foi trabalhar como auxiliar na
Arquidiocese de Cracóvia. Após a morte de Sapieha, em 1963,
ascendeu ao cargo de arcebispo.
Desenvolveu um trabalho pastoral vigoroso,
que o aproximava do povo, e apurou seu senso de história e
de política - fundamental para a sobrevivência da Igreja sob
o regime comunista que sucedera ao nazismo na Polônia. Aos
poucos, o arcebispo de Cracóvia tornou-se uma referência
religiosa e política no país. Sua influência no interior da
Igreja também começou a aumentar, empurrada pela sua
capacidade de conquistar amigos, pela erudição em assuntos
doutrinários e pela facilidade com que aprendia línguas.
Wojtyla chegou a falar 11 idiomas.
Em 1967, o papa Paulo VI, que havia
recorrido a ele mais de uma vez para consultas sobre temas
políticos e de doutrina moral, recompensou seu trabalho com
a púrpura cardinalícia. Aos 47 anos, Wojtyla tornou-se um
dos mais jovens cardeais do mundo e um dos símbolos da
resistência católica ao comunismo. (Roldão Arruda - AE)
Papa foi um obcecado na luta pela paz
ROMA - A luta pela paz foi uma obsessão de João Paulo
II, em seus últimos anos de pontificado. Ele se empenhou
firmemente para evitar a Guerra do Kosovo, na antiga
Iugoslávia, em maio de 1999, quando enviou uma mensagem às
partes envolvidas no conflito, exortando-as a renunciar à
violência.
Ao visitar a Croácia quatro anos depois, em
junho de 2003, o papa lembrou o sofrimento das vítimas para
pedir ao mundo que evitasse novas guerras. Sua viagem à
Croácia e, em seguida, à Bósnia-Herzegovina - países de
minoria católica -, foi mais uma cruzada pela paz.
O papel de João Paulo II na luta contra a
guerra foi fundamental no caso da invasão do Iraque pelas
forças dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Antes de se
iniciar o conflito o papa fez tudo o que estava ao seu
alcance para convencer o presidente americano, George W.
Bush, a desistir do recurso às armas.
Conforme notícias não desmentidas pelo
Vaticano, João Paulo II estaria disposto a viajar a Bagdá,
para desencorajar, com sua presença, um ataque
norte-americano contra o Iraque. Seus assessores o teriam
desaconselhado a tomar essa atitude.
Quando veio a guerra, o papa continuou
lutando contra a violência e principalmente contra suas
conseqüências. "Conflitos armados põem em risco a esperança
da humanidade de um futuro melhor", advertiu João Paulo II
no fim de março de 2003, ao fazer uma oração pelas vítimas
da guerra do Iraque. Um ano e pouco depois, no dia 4 de
junho, o papa aproveitou seu encontro com o presidente Bush
no Vaticano para pedir que a situação do Iraque se
normalizasse o mais rápido possível. Após condenar, mais uma
vez, a guerra, ele repudiou as torturas de prisioneiros
iraquianos numa cadeia localizada em Bagdá.
"Nas últimas semanas, fatos deploráveis têm
saído à luz, perturbando a consciência cívica e religiosa de
todos e dificultando um compromisso com os valores humanos.
Se esses valores não são respeitados, nem a guerra nem o
terrorismo podem ser superados", advertiu o papa. A
audiência durou 15 minutos. (José Maria Mayrink - AE)
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