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O Adeus ao Papa
1920 - 2005

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Textos: AGÊNCIA ESTADO / Gráficos: AGÊNCIA ESTADO / GRAFFO

“Nosso Santo Padre voltou para a casa do Pai”

ROMA - Já era noite alta em Roma quando o arcebispo Leonardo Sandri apareceu à frente da multidão na Praça São Pedro. Cem mil pessoas esperavam. "Irmãos e irmãs", começou o subsecretário de Estado do Vaticano, ladeado por cardeais. "Nosso Santo Padre João Paulo voltou para a casa do Pai." O anúncio foi acolhido com um longo aplauso. Os sinos da Basílica de São Pedro badalaram, seguidos pelos das outras igrejas de Roma. Depois, o silêncio voltou a reinar na praça. E a multidão chorou.

O papa morreu olhando para a janela de seu apartamento, através da qual durante incontáveis vezes abençoara os fiéis, ao longo dos últimos 26 anos. Apesar do coração fraco e da respiração difícil, João Paulo viveu momentos intermitentes no seu último dia. "O Santo Padre morreu esta noite às 21h37 (16h37 em Brasília) em seu apartamento particular", informou a nota oficial, distribuída para os jornalistas via correio eletrônico pelo porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro Valls. "Todos os procedimentos previstos na Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, promulgada por João Paulo II em 22 de fevereiro de 1996, já foram colocados em prática", assegurou o comunicado, referindo-se à seqüência de providências a ser observada nas próximas duas ou três semanas, até a escolha de seu sucessor.

Seguindo o ritual da Santa Sé, a morte do papa foi atestada pelo carmelengo Eduardo Martinez Somalo, a maior autoridade administrativa da Igreja, na ausência do papa. Em seguida, o camareiro-chefe retirou o anel do pescador do dedo do pontífice, que deve ser quebrado, juntamente com o selo do papa, para que não sejam usados por mais ninguém.

Dois milhões de fiéis são esperados nos funerais. Pela regra, ele deve ocorrer dentro de quatro a seis dias, e o corpo deve ser exposto por três. Também na segunda-feira se realizará a primeira reunião de cardeais para preparar o próximo conclave, que elegerá o sucessor de João Paulo.

A morte do papa poucas horas antes da passagem para o domingo, o dia do descanso semanal católico, revestiu-se de simbolismo. "Avizinha-se a aurora do domingo, dia do Senhor, observou o cardeal Sodano. "Alegra-nos pensar no Santo Padre João Paulo II na glória de Deus acolhido na casa do Pai, ressurgido e vivo".

João Paulo II representou para o mundo bem mais do que o líder máximo de uma igreja com 1,1 bilhão de seguidores. Quando assumiu o pontificado, em 1978, a Igreja católica experimentava um momento de lassidão doutrinária, instaurado pelo Concílio do Vaticano 2º (1962-65). O papa tomou a peito a tarefa de ordenar e unificar a Igreja sob um dogma claro e inquestionável. E o fez com visível gosto, para admiração de uns e perplexidade de outros.

Segundo Navarro-Valls, as pessoas mais próximas ao papa lhe informaram que muitos jovens estavam na Praça São Pedro desde que souberam da piora em sua situação. João Paulo II teria então se referido a esses jovens ao tentar se pronunciar: "Eu procurei por vocês. Agora vocês vieram a mim. E eu agradeço a vocês". (Jamil Chade - AE)


João Paulo II canonizou Santa Paulina em 2002

SÃO PAULO - Nenhum papa fez tantos santos como João Paulo II na história da Igreja. Durante os 26 anos de seu pontificado, ele canonizou 482 e beatificou 1.338 pessoas de todos os continentes, entre os quais Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Embora tenha nascido na Itália, na aldeia de Vigolo Vattaro, em Trento, então sob domínio da Áustria, ela é venerada como a primeira santa do Brasil.

Amabile Lúcia Visintainer, a futura Santa Paulina, emigrou com a família para Santa Catarina em 1875, aos nove anos de idade. Foi ali, na região onde se localiza atualmente Nova Trento, que ela fundou a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, para cuidar de doentes e da educação de crianças pobres.

O presidente Fernando Henrique Cardoso assistiu à cerimônia de canonização na Praça de São Pedro, no Vaticano, na manhã de 19 de maio de 2002. No dia seguinte, ele e sua comitiva tiveram uma audiência particular com João Paulo II. Cerca de 2.500 brasileiros viajaram a Roma para assistir à cerimônia.

João Paulo II, que havia beatificado Madre Paulina em Florianópolis, uma das escalas de sua segunda viagem ao Brasil, em 1991, beatificou também Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, em outubro de 1998. Paulista de Guaratinguetá, Frei Galvão era frade franciscano e viveu em São Paulo, onde construiu o Convento da Luz.

Em março de 2000, João Paulo II proclamou beatos mais 30 brasileiros, os 30 mártires de Uruaçu, no Rio Grande do Norte, que foram assassinados por invasores holandeses em 1645, por terem se recusado a renegar a fé católica.

No governo do papa Karol Wojtyla, a Sagrada Congregação para a Causa dos Santos acelerou os processos de beatificação e de canonização, normalmente muito morosos.

Dois dos novos beatos que João Paulo II elevou aos altares foram os seus predecessores Pio IX e João XXIII, papas de destaque na história recente da Igreja. Entre os santos modernos, ele incluiu Padre Pio, frade capuchinho italiano que morreu em 1968 e o fundador do Opus Dei, monsenhor José Maria Escrivá de Balaguer, morto em 1975. Seus processos correram em tempo recorde, por empenho pessoal de João Paulo II.

Brasil foi o destino de três viagens em 26 anos

São Paulo - Das 104 viagens fora da Itália que João Paulo II fez em 26 anos de pontificado, três tiveram como destino o Brasil. Nas duas primeiras, em 1980 e 1991, o papa percorreu o País de Norte a Sul, para visitar 23 cidades, todas capitais de Estados, com exceção apenas de Aparecida (SP), onde consagrou o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, dando-lhe o título e os privilégios de basílica. A terceira viagem, em outubro de 1997, restringiu-se ao Rio, sede do 2.º Encontro Mundial do Papa com as Famílias. Rio, Brasília e Salvador foram as três únicas cidades que entraram duas vezes no roteiro.

Karol Wojtyla, que havia assumido o governo da Igreja em outubro de 1978, era um homem de porte atlético e jovial quando se ajoelhou para beijar a terra no aeroporto de Brasília, em 30 de junho de 1980. Era um polonês de 60 anos que falava português com bastante desembaraço, capaz de interromper seus discursos com improvisos jocosos que levavam as multidões ao delírio. Recebido pelo general João Batista Figueiredo, o último general-presidente do regime militar, passou por cima do protocolo diplomático para dar o seu recado aos governantes e fiéis do maior país católico do mundo.

Celebrou uma missa campal na Esplanada dos Ministérios e saudou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como "o corpo episcopal mais numeroso do mundo". A CNBB, então sob a presidência de d. Ivo Lorscheiter, de Santa Maria (RS), recebeu apoio e solidariedade do papa, mas também ouviu reprimendas. Na reunião de Brasília, João Paulo II recomendou cautela contra excessos da Teologia da Libertação e advertiu para os riscos de manipulação política do evangelho.

Era só o começo de uma peregrinação que, nos 12 dias seguintes, lotaria praças e estádios, de Porto Alegre a Manaus, onde quer que João Paulo II aparecesse. O papa era uma grande novidade, pois estava fazendo ainda a sua sétima viagem apostólica ou visita pastoral fora da Itália. (José Maria Mayrink - AE)
 


Conclave escolhe o primeiro papa do milênio

ROMA - O novo líder da Igreja Católica será escolhido por um grupo de 120 cardeais, representando 54 países. Formam o chamado colégio cardinalício, do qual não podem participar cardeais com mais de 80 anos de idade.

Os cardeais, também chamados de príncipes da Igreja, constituem uma elite, um dos principais símbolos da monarquia absoluta que é a Santa Sé, com regulamentos e rituais milenares como o do conclave. Se a Igreja Católica "não é uma democracia", como já disse o próprio papa João Paulo II, o único momento em que mais se aproxima dela é justamente no conclave - em que os cardeais exprimem a própria vontade e decidem.

O conclave é realizado sob um clima de absoluto segredo. Os cardeais eleitores se reúnem num prazo máximo de 20 dias após a morte do pontífice, para assistir à missa votiva "pro eligendo papa". Sob estreita vigilância, para se não comunicarem com ninguém no caminho, vão em procissão até a suntuosa Capela Sistina. No caminho, invocam a inspiração do Espírito Santo com o cântico Veni Creator.

A Capela Sistina, sede dos conclaves desde que foi construída no século 15, é a capela particular dos papas e o ambiente mais célebre dos palácios vaticanos. Durante as reuniões de votação, os cardeais se distribuem em duas filas laterais. Cada um tem uma poltrona de madeira com escrivaninha coberta de feltro bege e vermelho.

Na frente do altar, sob o afresco O Juízo Final, de Michelangelo, são colocadas três mesas: uma para a urna e duas para os escrutinadores. A estufa onde são queimadas as cédulas depois da contagem dos votos fica no fundo da capela. A queima é feita junto com os papéis usados pelos cardeais para anotações, isto para impedir que se conheçam os alinhamentos políticos que caracterizam a eleição.

Do lado de fora, a chaminé concentra as atenções do mundo inteiro, pois é através dela que as pessoas acompanham a votação e ficam sabendo se o novo papa já foi eleito. Se a fumaça sair preta, quer dizer que ainda não há um novo pontífice. Quando os cardeais escolhem o nome, a fumaça torna-se branca simplesmente acrescentando palha umedecida às cédulas queimadas.

Eliminadas as antigas votações por aclamação e por compromisso, o sucessor de João Paulo II será eleito por voto escrito - escrutínio -, com a maioria de dois terços.

Batalhas - É interesse do Vaticano que o conclave seja rápido, para evitar que a opinião pública pense que os cardeais estão travando duras batalhas, o que de fato pode ocorrer. Caso não cheguem a um acordo, depois de três dias de escrutínios completos, com duas votações pela manhã e duas à tarde, será feita uma pausa. Se permanecer o impasse, quando se retomarem as votações, são previstas três séries de sete escrutínios com uma pausa após cada uma delas. Não se obtendo resultado, passa-se à eleição por maioria absoluta entre os dois nomes mais votados.

Os cardeais devem manter segredo absoluto sobre tudo o que diz respeito ao conclave - nome que se dá à assembléia que elege o pontífice. A palavra, usada desde o século 13, quando foi instituído o isolamento para a votação, vem do latim e quer dizer "sob chaves" ou "quarto fechado", para evidenciar o caráter secreto de toda a operação.

O sigilo continua valendo, apesar dos séculos, e foi reforçado por João Paulo II na constituição apostólica de 1996 que trata da sucessão. Quem não respeita o segredo corre o risco de ser excomungado. A preocupação é tão grande que, antes do início da votação, a Capela Sistina é minuciosamente vasculhada por técnicos especializados, à procura de eventuais sistemas de gravação secretos que podem ter sido instalados por espiões.

Para evitar qualquer contato com o exterior, aos cardeais é vetado o uso de telefones celulares, computadores e gravadores. E para não serem influenciados nem perderem a concentração, os eleitores são proibidos de ler jornais, ver televisão e ouvir rádio

Pode parecer muito rigoroso, mas não é nada em comparação com os tempos passados, quando os eleitores dos papas eram confinados em cubículos sem aquecimento e serviços de higiene. O conclave que que elegeu Gregório X em 1271 demorou três anos e os cardeais só chegaram a um acordo sob tortura: primeiro ficaram sem comida e depois sem o teto onde estavam hospedados. E era inverno.

O conclave que elegeu João Paulo II também não foi o máximo do conforto, apesar de ter sido em 1978. Os 123 eleitores ficaram alojados no Palácio Apostólico, onde se adaptaram escritórios da Secretaria de Estado, corredores e salas criando celas sem janela nem banheiro. O refeitório foi improvisado nada menos que nas magníficas salas de Rafael. (Assimina Vlahou - AE)
 

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Wojtyla: estilo de papa informal

ROMA - Após ser escolhido como 263º sucessor de São Pedro, quando era relativamente jovem, com 58 anos, João Paulo II, nome que ele mesmo havia escolhido, assumiu o papado com extraordinária tranquilidade, coragem, satisfação, bom humor, informalidade sem precedentes e a firme decisão de dirigir e remodelar a Igreja segundo seus critérios inflexíveis. Ao contrário de muitos papas anteriores, João Paulo II não revelou dúvidas, hesitação, modéstia (falsa ou de qualquer outro tipo) ou incertezas desde o momento de sua eleição como o primeiro pontífice não italiano em 456 anos.

Sem perda de tempo, o novo papa lançou-se a um turbilhão de atividades globais eclesiásticas, litúrgicas, políticas e diplomáticas que nunca pararam - e só se reduziram por causa da idade, da fraqueza e da saúde cada vez mais frágil.

Quando um amigo perguntou sobre sua saúde no final dos anos 90, tempo em que Wojtyla arrastava os pés em vez de andar, o papa respondeu com um brilho brincalhão no olhar: "Estou ótimo - da cabeça para cima!" Sua mente e inteligência continuavam perfeitamente lúcidas, alertas e brilhantes.

Durante o mais longo pontificado do século 20, um dos mais longos de todos os tempos, que entrou numa terceira década e no novo século, João Paulo II nunca mudou em termos de devoção religiosa, filosofia fundamental, idéias e relacionamento com as pessoas. A fé absoluta que ele tinha em sua própria sabedoria - algumas pessoas chamavam-na de obstinação ou algo pior - e seu assombroso ativismo em todos os setores imagináveis, sagrados e profanos, exerceram profunda influência nos assuntos da Igreja e em grande parte do mundo além dela na segunda metade do século.

Ele tinha uma impressionante visão da História e se tornou um participante diplomático fundamental. Mas sob muitos aspectos era um homem misterioso: amistoso, mas imprevisível em seus atos e indecifravelmente reservado. Historiadores futuros vão pesar e avaliar esse pontificado levando a vantagem da perspectiva, da visão retrospectiva e de materiais que por certo virão à luz no momento adequado. O que já está claro, no entanto, é que João Paulo II foi um dos papas mais notáveis e fascinantes nos dois milênios de história da Igreja, fazendo lembrar Gregório, o Grande, o modelo em que ele se inspirou, que reinou no século 6.º. É prematuro, claro, proclamar João Paulo II como um "grande papa", embora milhões de seus admiradores o considerem como tal - ao passo que outros adotaram opinião oposta, desde a direita até a esquerda do espectro político de que a Igreja é integrante em grande parte. (Tad Szulc - AE)

Papa conquistou multidões com sua cultura singular

ROMA - O que fez João Paulo II tão interessante foram, antes de mais nada, seu vigoroso intelecto e acuidade cultural, sua formação singular por ter vivido sob a ocupação da Polônia pelos nazistas e sob o comunismo no pós-guerra. Também o foram suas experiências de operário, padre de paróquia, conselheiro acadêmico, professor e escritor sobre ética, com dois títulos de doutorado, poeta, dramaturgo e ator, poliglota, homem da vida ao ar livre, atleta, esquiador, viajante, político extremamente talentoso e pacificador diplomático que ajudou a acabar com a Guerra Fria.

Nenhum papa em época recente nem seus adversários na eleição de 1978 tiveram credenciais tão assombrosas. E ele era bonitão com seu jeito eslavo, encantador.

Mas João Paulo II foi extremamente controvertido, porque cultivava idéias e opiniões que agradavam a grandes segmentos do 1 bilhão de católicos do mundo e ofendiam outros em assuntos que iam do aborto à contracepção artificial.

Normalmente, João Paulo II não pedia conselhos, mas a teologia era uma exceção, e ele foi inquestionavelmente influenciado pelo cardeal Joseph Ratzinger, alemão que foi Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e também principal teólogo do Vaticano.

O papa conhecia havia décadas a linha dura irredutível de Ratzinger e tinha absoluta confiança em suas opiniões sobre teologia. As opiniões do cardeal eram tão rígidas e quase medievais que dentro do Vaticano havia quem chamasse sua congregação de Nova Inquisição. Ainda assim, a porta do papa ficava aberta a liberais e moderados da Igreja e seculares: ele precisava saber o que todos pensavam.

No cenário mundial, João Paulo II foi um incansável defensor da democracia política, dos direitos humanos e da justiça social e crítico declarado do capitalismo "desenfreado" que ele julgava não representar "uma verdadeira melhora em relação ao marxismo". Lamentava o materialismo, o consumo de drogas e o alcoolismo, advertindo o Ocidente contra a sua "cultura da morte". Ele não era fã dos EUA como sociedade.

A liberdade religiosa em toda parte era uma das principais preocupações de João Paulo II, que a manifestava em toda ocasião. Portanto, foi para os judeus o melhor dos papas ao pregar contra o anti-semitismo com fervor exaltado. Referindo-se aos judeus como "nossos irmãos mais velhos", ele insistia em lembrar às suas platéias que o Conselho Vaticano 2.º, em meados da década de 60, havia proclamado que os judeus não tiveram culpa na crucificação de Cristo e bradava dizendo que era anticristão ser anti-semita. Ele rezou muitas vezes no campo de concentração de Auschwitz, não muito longe de sua cidade natal polonesa, em memória dos milhões de judeus e outros mortos ali pelos nazistas.

João Paulo II foi o primeiro papa a atravessar o Rio Tibre e visitar a sinagoga de Roma. Onde houvesse comunidades judaicas, ele se reunia com seus representantes quando viajava ao estrangeiro.

No quinqüagésimo aniversário do levante dos judeus no gueto de Varsóvia em 1944 contra os ocupantes nazistas, o papa presidiu, num grande salão do Vaticano, um concerto em memória do episódio, durante o qual um menorá - o santo candelabro judaico com sete velas - foi aceso pela primeira vez num recinto da Santa Sé e a prece funerária Kaddish foi recitada. João Paulo II sentou-se entre o presidente da Itália e o grande rabino de Roma, rodeado por sobreviventes dos campos de concentração. Foi uma das mais comoventes cerimônias realizadas no Vaticano em muito, muito tempo. (TS - AE)
 


João Paulo II viveu como poucos o século 20

ROMA - Na tarde de 16 de novembro de 1978, após dois dias de deliberações, o colégio cardinalício definiu o nome do novo papa. O representante do grupo, cardeal Pericle Felice, deixou a sala e dirigiu-se à multidão reunida na Praça de São Pedro para anunciar em latim, língua oficial da Igreja Católica Apostólica Romana, a novidade: "Habemus papam."

A multidão respondeu com aplausos e silenciou em seguida aguardando o nome. Esperava-se que fosse causar uma manifestação de alegria ainda maior. Mas não foi o que aconteceu. Quando o cardeal disse Karol Wojtyla, as pessoas se entreolharam, confusas, como se perguntassem: quem?

O polonês era desconhecido da maioria dos católicos. Nem jornalistas veteranos na cobertura de assuntos do Vaticano haviam incluído seu nome nas listas dos papáveis. Ele também não figurava no material distribuído dias antes pela assessoria de imprensa da Cúria Romana, com as biografias dos 36 cardeais com maiores chances de serem eleitos.

Nas horas seguintes, porém, emergiriam da Polônia histórias notáveis de um homem que parecia ter passado toda vida se preparando para aquela missão. No período de 32 anos, na travessia entre Cracóvia, cidade em que se ordenou, e Roma, onde os cardeais o escolheram para o trono de Pedro, poucos líderes religiosos se destacaram como ele no trabalho pastoral, intelectual e político.

Melancolia e solidão - João Paulo II nasceu no dia 18 de maio de 1920, na pequena Wadowice. Recebeu o nome do pai, Karol Wojtyla, um oficial reformado do exército polonês, católico praticante e de de hábitos reservados. Sua mãe, Emilia, era uma dona de casa de saúde frágil, melancólica, que não se conformava com a morte de uma filha, recém-nascida, em 1914.

A infância e a juventude do futuro papa foram marcadas pela tragédia familiar. Em 1929, pouco antes de completar o nono aniversário, ele perdeu a mãe, vítima de uma doença nos rins. O irmão mais velho morreria dois anos depois, com escarlatina. A morte do pai ocorreu semanas antes de Karol completar 22 anos, levando-o a uma profunda sensação de solidão, segundo seus biógrafos. Ele ficou sozinho, sem parentes.

A vocação sacerdotal despertou num período difícil, logo após a invasão da Polônia pelas tropas de Hitler. A Igreja Católica, que em outras invasões do país funcionara como fator de identidade nacional, preservando a cultura e estimulando movimentos de libertação, começou a ser perseguida. Os nazistas fecharam os seminários e assassinaram centenas de padres e freiras, acusados de traição.

A Igreja resistiu e continuou a formar sacerdotes em seminários clandestinos. Foi num deles que Wojtyla começou. Trabalhava durante o dia como operário numa fábrica de soda cáustica e à noite tinha aulas com os padres. Nessa época sofreu um acidente que o deixou pela primeira vez de frente com a morte. Atropelado por um carro de guerra alemão, teve uma concussão cerebral e ficou inconsciente durante nove horas.

Foi ordenado padre no dia 1º de novembro de 1946, Dia de Todos os Santos. Sua capacidade intelectual e dedicação aos estudos chamou a atenção do arcebispo de Cracóvia e futuro cardeal Adam Stefan Sapieha, que se tornou seu protetor. Logo após a ordenação, ele despachou Wojtyla para Roma onde faria os estudos de pós-graduação.

A carreira na Igreja foi meteórica. Tornou-se bispo aos 38 anos e foi trabalhar como auxiliar na Arquidiocese de Cracóvia. Após a morte de Sapieha, em 1963, ascendeu ao cargo de arcebispo.

Desenvolveu um trabalho pastoral vigoroso, que o aproximava do povo, e apurou seu senso de história e de política - fundamental para a sobrevivência da Igreja sob o regime comunista que sucedera ao nazismo na Polônia. Aos poucos, o arcebispo de Cracóvia tornou-se uma referência religiosa e política no país. Sua influência no interior da Igreja também começou a aumentar, empurrada pela sua capacidade de conquistar amigos, pela erudição em assuntos doutrinários e pela facilidade com que aprendia línguas. Wojtyla chegou a falar 11 idiomas.

Em 1967, o papa Paulo VI, que havia recorrido a ele mais de uma vez para consultas sobre temas políticos e de doutrina moral, recompensou seu trabalho com a púrpura cardinalícia. Aos 47 anos, Wojtyla tornou-se um dos mais jovens cardeais do mundo e um dos símbolos da resistência católica ao comunismo. (Roldão Arruda - AE)

Papa foi um obcecado na luta pela paz

ROMA - A luta pela paz foi uma obsessão de João Paulo II, em seus últimos anos de pontificado. Ele se empenhou firmemente para evitar a Guerra do Kosovo, na antiga Iugoslávia, em maio de 1999, quando enviou uma mensagem às partes envolvidas no conflito, exortando-as a renunciar à violência.

Ao visitar a Croácia quatro anos depois, em junho de 2003, o papa lembrou o sofrimento das vítimas para pedir ao mundo que evitasse novas guerras. Sua viagem à Croácia e, em seguida, à Bósnia-Herzegovina - países de minoria católica -, foi mais uma cruzada pela paz.

O papel de João Paulo II na luta contra a guerra foi fundamental no caso da invasão do Iraque pelas forças dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Antes de se iniciar o conflito o papa fez tudo o que estava ao seu alcance para convencer o presidente americano, George W. Bush, a desistir do recurso às armas.

Conforme notícias não desmentidas pelo Vaticano, João Paulo II estaria disposto a viajar a Bagdá, para desencorajar, com sua presença, um ataque norte-americano contra o Iraque. Seus assessores o teriam desaconselhado a tomar essa atitude.

Quando veio a guerra, o papa continuou lutando contra a violência e principalmente contra suas conseqüências. "Conflitos armados põem em risco a esperança da humanidade de um futuro melhor", advertiu João Paulo II no fim de março de 2003, ao fazer uma oração pelas vítimas da guerra do Iraque. Um ano e pouco depois, no dia 4 de junho, o papa aproveitou seu encontro com o presidente Bush no Vaticano para pedir que a situação do Iraque se normalizasse o mais rápido possível. Após condenar, mais uma vez, a guerra, ele repudiou as torturas de prisioneiros iraquianos numa cadeia localizada em Bagdá.

"Nas últimas semanas, fatos deploráveis têm saído à luz, perturbando a consciência cívica e religiosa de todos e dificultando um compromisso com os valores humanos. Se esses valores não são respeitados, nem a guerra nem o terrorismo podem ser superados", advertiu o papa. A audiência durou 15 minutos. (José Maria Mayrink - AE)
 

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