A sugestão veio de uma amiga através de um carinhoso
e-mail que dizia "quem sabe tu falas um pouco sobre
relacionamento com filhos adolescentes..." Gostei, o tema
é bom mesmo! Vou tentar abordar algumas idéias. A
adolescência inicia com a puberdade, ou seja, são as
diversas alterações corporais que sinalizam a nova fase. O
término dela está mais vinculado às mudanças sociais,
geralmente é a definição da carreira profissional e a
independência econômica que marcam o começo da idade
adulta. Entre um ponto e outro, muita instabilidade
emocional "vai rolar". Ora, é bom lembrar que a principal
tarefa a ser cumprida pelos adolescentes é desenvolver o
senso de identidade própria, respondendo perguntas do
tipo: quem sou eu, quem devo ser e qual o caminho a
seguir.
A fase é de adaptação total, tanto para a
gurizada quanto para os pais, afinal, crescer é assunto de
família. De um lado temos adultos se esforçando para
acertar na criação de seus rebentos e, de outro, filhos
querendo fazer valer suas opiniões e vontades. A
convergência desses objetivos costuma produzir momentos de
discórdia e tensão, entretanto, há necessidade de
construir uma relação de convivência positiva. E aí vai a
primeira idéia, a responsabilidade dos pais é maior nessa
construção. São os pais que precisam dispor de equilíbrio
emocional, firmeza de valores e uma boa dose de esperteza
para lidar com essa galera. Pois se, até bem pouco tempo
atrás, as questões cotidianas pareciam tão mais simples,
de repente não são mais. Horários, roupas, corte de
cabelo, tarefa de casa, estudo para prova compunham o
cotidiano da família e a paz quase que reinava em boa
parte do tempo.
Acontece que, na adolescência, ações de
rotina e de importância menor acabam por promover grande
desgaste emocional desnecessário, se os pais permitirem. É
que entra em ação o egocentrismo do adolescente. Em suma,
eles têm dificuldade de perceber e aceitar as visões das
outras pessoas, pois firmemente acreditam que o mundo gira
em torno deles, ponto. Para facilitar o acesso, pode ser
muito útil reconhecer essa posição, ter disponibilidade
para ouvir, permitindo a expressão de opiniões e
pensamentos sem críticas ou julgamentos antecipados.
Adotar este comportamento costuma transmitir uma mensagem
evidente de abertura e aceitação, oportunizando a eles a
agradável sensação de ter suas idéias consideradas
importantes (o que não significa que automaticamente serão
aceitas...).
Vale lembrar que ao provocar no outro
algum sentimento positivo verdadeiro, se amplia a
possibilidade que qualquer postura inicial de oposição se
suavize. Manter-se aberto a negociações dentro de um
limite considerado razoável para os pais oportuniza o
aprendizado de que na vida é preciso lutar por aquilo que
se quer. Adolescentes não batalham contra os pais, embora
às vezes pareça que sim, mas a favor de seu crescimento.
Eles precisam de certa dose de liberdade para que possam
ter preservada a intimidade de pensamentos e sentimentos.
Se na infância a família era o ambiente
que permitia o exercício da sociabilidade, na adolescência
o grupo de amigos é o "laboratório social" onde serão
explorados diversos tipos de comportamento. Os pais
costumam ter medo de que certos amigos "levem para o mau
caminho". É verdade que os pares exercem forte influência,
fato esse compreensível se nos lembrarmos que eles, os
jovens, ainda não sabem exatamente quem são, o que querem
ser e qual o caminho que querem seguir. Na prática, a
melhor maneira de enfrentar a força do grupo é se unindo a
ele, abrindo espaço, sempre que possível, para a
convivência. Essa atitude costuma favorecer o olhar atento
e a proximidade com as interações que se estabelecem entre
os componentes do grupo, podendo assim construir opiniões
baseadas em fatos, e não em "achismos". Afinal, qual
adolescente vai aceitar um "acho que fulano não é boa
companhia para ti", assim, simplesmente? Reúna evidências
concretas e só então proponha um diálogo franco. É
obrigação das gerações mais experientes transmitir
princípios e valores sólidos sobre os quais os mais novos
irão construir sua identidade, pois pais adultos sabem que
uma conduta inadequada transitória pode ter efeitos
bastante duradouros. Boa semana e até a próxima!