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LÚCIO FLÁVIO




 
 

Sábado, 15/06/2019, às 06:00

Quem com vazamento fere...

Quem é partidário, de Lula ou de Bolsonaro, tem uma posição definida sobre os vazamentos que envolveram Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato, revelados durante a semana. Os que vibraram com os vazamentos ilegais das conversas entre Dilma e Lula, em 2016, são os que agora criticam o vazamento das conversas mantidas pelo então juiz com o procurador Deltan Dallagnol, da Lava-Jato. A discussão central (a ilegalidade da obtenção dessas conversas) acaba em segundo plano. “O problema não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo. O problema era o diálogo em si, o conteúdo do diálogo”, justificou Moro em entrevista em abril deste ano, acerca do episódio envolvendo a então presidente. A justificativa, no entanto, serve igualmente para o vazamento das conversas mantidas por ele com um dos acusadores de Lula.

De um juiz espera-se a neutralidade para julgar, e não que combine procedimentos com uma ou outra parte. E se tivesse sido o contrário? Caso Moro fosse simpático à defesa de Lula, e orientasse os advogados do ex-presidente a ponto de culminar em sua absolvição? Mais: e se, com isso, o PT tivesse elegido Fernando Haddad presidente e Moro tivesse virado ministro da Justiça no governo petista? Não teria sido um escândalo, aos olhos de quem é contra o PT? Claro que Sérgio Moro tem a seu favor um passado honesto e o apoio de grande parte da população, que vê nele um herói, por ter conseguido prender importantes figurões, a maioria corruptos confessos. O maior problema desses vazamentos é que reforçam a ideia de que o juiz e os procuradores da Lava-Jato estavam lutando não contra a corrupção, mas contra o PT.

 

A virtude do equilíbrio
Falei nos partidários de Lula ou Bolsonaro porque são eles que dominam o debate, nas redes sociais. Mas há um grande número de pessoas que não apoiam nem um nem outro. Ou criticam os dois ao mesmo tempo. No segundo turno das eleições presidenciais do ano passado, por exemplo, um número superior a 30% dos eleitores não votou em nenhum dos dois candidatos, um recorde -- 42 milhões de pessoas anularam o voto ou nem foram votar. Digo isso porque basta uma crítica ao capitão (ou aos seus ministros) para os defensores dele virem com sangue nos olhos e, dedo em riste, perguntar se o infeliz quer a volta do PT. Como se os dois polos fossem as únicas alternativas. Não são, e não custa lembrar que, três séculos antes de Cristo, Aristóteles já ensinava que a virtude está no meio.


As lições que ficam
Desse vazamento das conversas de Sérgio Moro e procuradores da Lava-Jato é possível tirar as mesmas lições que, noutra época, Lula, Dilma e Temer foram obrigados a tirar. A primeira delas é que, na era dos smartphones, não há mais privacidade. Seja presidente do Brasil, ministro da Justiça, procurador da Lava-Jato, ou alguém como nós. Tudo fica registrado – e tudo que se disser será usado contra você. E a maior lição de todas: que é fundamental cumprir a lei. Lutar para mudá-la, quando for o caso. Mas nunca passar por cima dela, especialmente quando se é o responsável por aplicá-la.

Justiça x política
O vazamento dos áudios compromete Sérgio Moro politicamente, não se tem a menor dúvida. Faz parecer, ainda que não seja verdade, que ele estava de conluio com Bolsonaro, para favorecê-lo nas eleições, tirando Lula do páreo, e posteriormente tornar-se ministro. Pior ainda podem ser os efeitos jurídicos. E se o Supremo aceitar os argumentos da defesa de Lula e tornar nulos os atos processuais praticados pelo ex-juiz? Ou seja, de uma forma ou de outra, o estrago será grande.




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