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IVANA ANSELMO SOUZA




 
 

Ontem, 27/06/2017, às 06:00

Cracolândia

Nas últimas semanas acompanhamos as ações da prefeitura de São Paulo na tentativa de acabar com a Cracolândia. Essas ações geraram grande polêmica em todo o país e até mesmo fora dele. Diversos foram os motivos de tanta especulação, e um dos temas que mais dividem opiniões foi a decisão da administração municipal de querer internar à força os usuários de drogas.

Existe uma lei federal, de número 10.216, que permite a internação voluntária, a involuntária e a compulsória. São elas:

-Internação voluntária é quando o paciente concorda com a internação.

-Internação involuntária: o paciente não concorda, mas a família consente.

-Compulsória é quando, além de o paciente não concordar com a internação, a família não está presente para autorizar o procedimento. Nesse caso, o médico fundamenta a necessidade de internação e o juiz dá sua autorização para que o processo siga adiante.


Bem, muito ainda se discute a respeito das distorções dessa lei nas ações realizadas recentemente em São Paulo. Contudo, a internação contra a vontade do paciente é tema que há muito tempo gera discussão e polêmica entre especialistas da área.

Quando comecei a trabalhar com recuperação da dependência química, há quase 20 anos, eu era contra qualquer tipo de internação contra a vontade do dependente. Eu defendia veementemente a posição de que se a pessoa não tivesse o desejo de parar de usar drogas, não iria parar de usar. Minha tese era de que o dependente precisava desejar o tratamento para este funcionar. Em 2012 iniciei uma pesquisa sobre o assunto em um centro de reabilitação onde a maioria dos acolhidos vinha através da internação involuntária. Durante os anos de 2012 e 2013 conversei com mais de 300 dependentes acolhidos nesta instituição. E para minha surpresa, percebi que, mesmo sendo internados contra a vontade, depois de certo tempo, em média dez dias, a grande maioria – 74% – dos acolhidos aderia ao tratamento. Ou seja, eles se davam conta de que precisavam se tratar, precisavam parar de usar drogas. E agradeciam por terem sido internados. Quando eu questionava se tinha sido bom ter sido internado contra a vontade, o discurso da maioria deles era: “Sim, foi. Se eu não viesse para cá, acho que teria morrido usando drogas”.

Ainda hoje converso de vez em quando com alguns dos entrevistados daquela época, e eles continuam sóbrios, vivendo uma vida digna em recuperação. Desta forma, mudei minha opinião quando fui à “frente de batalha” e averiguei os fatos.

Minha intenção com este relato não é defender ações dos órgãos públicos, de forma alguma. Gostaria apenas de compartilhar que a internação involuntária e a compulsória também funcionam. E podem ser a chance para muitos dependentes.




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